# Arco e flechas

> Energia armazenada libertada à distância

- Data: há 62.000 anos
- Época: Pré-história
- Domínio: [Defesa e fortificação](https://lastcodex.org/pt/domains/defense/)
- Etapa: II (Fixação)
- Dificuldade: 2/5
- URL: https://lastcodex.org/pt/inventions/bow-and-arrow/

O arco acumula nos braços curvados o esforço que o arqueiro faz ao puxar a corda e devolve-o numa fração de segundo, lançando a flecha muito mais depressa e mais longe do que uma mão a conseguiria atirar. Pequenas pontas de pedra da África do Sul sugerem que já se disparavam flechas há cerca de 64 000 anos, e o arco continuou a ser uma arma de caça e de guerra até as armas de fogo o substituírem.

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## Legenda

1. Braço superior
2. Punho
3. Braço inferior
4. Corda
5. Secção de um braço: alburno no dorso, cerne no ventre
6. Ponta de sílex atada com tendão
7. Emplumagem
8. Entalhe

## O que é

Um arco é uma vara flexível, quase sempre de madeira, com uma corda presa entre as duas pontas, e funciona como uma mola que se segura na mão. Quando se puxa a corda, a vara dobra-se; quando se larga, a vara endireita-se e a corda lança a flecha para a frente. A flecha é uma haste leve e direita, com uma ponta afiada à frente e penas atrás que a mantêm a voar com a ponta para a frente.

O arco da prancha é um arco simples, feito de uma única peça de madeira, do tipo do arco longo inglês: uma vara de teixo mais ou menos da altura do arqueiro, plana no dorso e arredondada no ventre, de modo que a secção tem a forma de um D. Muitos outros arcos combinam vários materiais. Os arcos compósitos da Ásia são feitos de chifre, madeira e tendão colados entre si, e vários povos da América do Norte colavam uma camada de tendão ao longo do dorso de um arco de madeira.

## Como funciona

As duas faces de um arco dobrado trabalham em sentidos opostos. O dorso, a face virada para o lado contrário ao arqueiro, é esticado; o ventre, virado para o arqueiro, é comprimido. A madeira resiste aos dois esforços, e por isso o trabalho feito para puxar a corda fica armazenado nos braços do arco sob a forma de energia elástica, tal como numa mola a que se dá corda. Um arco de caça pede normalmente uma tração de cerca de 180 a 270 newtons (40 a 60 libras) na abertura máxima, e os pesados arcos de guerra pediam muito mais.

O teixo serve bem para o arco simples porque o seu tronco tem dois tipos de madeira. O alburno, claro e logo por baixo da casca, aguenta bem o estiramento, e o cerne, mais escuro, aguenta bem a compressão. Os fabricantes de arcos deixam uma camada de alburno no dorso e cerne no ventre, como mostra a secção da prancha. Com a maioria das outras madeiras, o arco é talhado só no alburno ou só no cerne, e o dorso segue um único anel de crescimento a todo o comprimento.

Quando o arqueiro solta a corda, os braços saltam para a frente e a corda empurra a flecha. Nem toda a energia acumulada chega à flecha, porque os braços e a corda também se movem e ficam com parte dela. Braços leves, que dobram por igual, desperdiçam menos do que braços pesados. Com um arco de madeira, a flecha sai normalmente a uma velocidade de 40 a 60 metros por segundo.

O impulso é tão brusco que a flecha se dobra e vibra ao partir, contornando o punho do arco. Os arqueiros chamam a isto o paradoxo do arqueiro. Para a flecha voar direita, a sua rigidez, a que se chama spine, tem de estar adequada à potência do arco, tendo em conta o comprimento da flecha e o peso da ponta, dois fatores que mudam o quanto ela flete. As penas criam resistência do ar atrás do ponto de equilíbrio da flecha, de modo que qualquer oscilação faz a ponta regressar à linha de voo, como acontece com as aletas de um dardo. Uma ponta mais pesada desloca o ponto de equilíbrio para a frente e estabiliza o voo, mas também faz a haste fletir mais.

## Como construir

Para um arco simples são precisos uma machadinha ou uma faca de dois cabos, uma grosa, um raspador, uma faca, uma corda comprida, uma balança de mola e um poste de afinação: um poste vertical com um apoio para o punho no topo e uma série de encaixes ao longo da altura.

**Escolher a vara.** Procure um pedaço de madeira rija e elástica, de fio direito, sem nós nem torções: teixo, laranjeira-de-osage, ulmeiro, freixo, hickory ou ácer. Fenda-o a partir do tronco em vez de o serrar, para que o fio corra a todo o comprimento. Vede as pontas e deixe-o secar devagar, ao abrigo, durante vários meses, de preferência um ano.

**Preparar o dorso.** O dorso é a face que estava por baixo da casca. Na maioria das madeiras, tire a casca e siga um mesmo anel de crescimento a todo o comprimento sem o cortar: é num anel cortado que o arco parte. No teixo, deixe uma camada fina de alburno.

**Desbastar a forma.** Marque uma linha central e desenhe o contorno: um punho estreito e grosso ao meio e braços que afinam em direção às pontas. Num arco longo, a vara tem mais ou menos a altura do arqueiro. Retire madeira apenas do ventre, até cada braço fletir um pouco quando se apoia a ponta no chão e se empurra o punho.

![Um arco a meio do fabrico, apoiado pelo punho no topo de um poste de afinação vertical, com a corda puxada para baixo até um encaixe](https://lastcodex.org/_astro/v1.CRqpXHM-_10jqEc.webp)
_No poste de afinação, o arco é puxado um pouco mais a cada passo, para se poder comparar a curva dos dois braços._

**Afinar o arco.** Abra ranhuras para a corda perto das pontas, monte uma corda comprida e pouse o arco pelo punho no poste de afinação. Puxe a corda para baixo um encaixe de cada vez, leia a tração na balança e observe a curva. Nunca puxe com mais força do que a potência que pretende, ou a vara ainda por acabar fica sobrecarregada. Os dois braços devem dobrar em arcos suaves e regulares, sem zonas rígidas nem dobras bruscas. Deixe a corda subir devagar e tire o arco do poste antes de lhe tocar com uma ferramenta: nunca raspe um braço que esteja sob carga. Depois raspe o ventre onde um braço está demasiado rígido, poucas aparas de cada vez, e faça fletir o arco uma dúzia de vezes entre cada passagem. Pare um pouco antes de chegar à sua abertura completa e à potência desejada. É a fase mais lenta. Um troço curto que dobra mais do que o resto, uma dobradiça, sofre esforço a mais, e é aí que um arco tende a rachar.

**Fazer a corda.** Torça a corda com linho, cânhamo, tendão ou fio moderno de poliéster, com uma laçada fixa numa ponta e um nó de lenhador na outra. Com o arco armado, a distância entre a corda e o punho deve ser mais ou menos a largura de uma mão. Volte a pôr o arco armado no poste de afinação, já com a corda definitiva, e puxe-o por etapas até à abertura completa: os dois braços devem continuar a dobrar por igual e a balança deve marcar a potência prevista. Retire as últimas aparas apenas onde esta verificação revelar uma zona rígida, sempre com a corda solta e o arco fora do poste.

![A traseira de uma flecha: penas coladas ao longo da haste, a terceira escondida atrás, atadas com tendão nas duas pontas, e o entalhe](https://lastcodex.org/_astro/v2.CDZjlc0r_Z5UJx2.webp)
_Três penas da mesma asa, coladas e atadas nas pontas, mantêm a flecha a voar direita._

**Fazer as flechas.** Corte rebentos direitos de sanguinho, viburno ou aveleira, ou fenda hastes a partir de um tronco direito. Endireite-as sobre um calor brando e raspe-as até ficarem redondas. Separe-as pela rigidez, corte-as todas com o mesmo comprimento e monte pontas do mesmo peso, para que as flechas disparadas pelo mesmo arco voem da mesma maneira. Faça cada flecha com comprimento suficiente para a sua abertura completa, de modo que a ponta fique ainda à frente do arco com a corda toda puxada. Abra um entalhe para a corda na traseira. À frente, ate uma ponta de pedra, osso ou metal com tendão e uma cola como o alcatrão de vidoeiro, ou use uma ponta romba de madeira para treino. Cole três penas da mesma asa ao longo da haste, perto do entalhe, a intervalos iguais, e ate-lhes as pontas.

> **Segurança.** Um arco é uma arma, seja qual for a sua potência. Nunca aponte para ninguém e dispare apenas numa carreira de tiro com uma barreira atrás dos alvos e ninguém para lá dela. Nunca solte uma corda puxada sem flecha: a energia vai toda para o arco, que pode partir e projetar lascas. Use óculos de proteção durante a afinação e os ensaios, verifique antes de cada sessão se o arco, a corda e as hastes e os entalhes das flechas têm fendas, e use flechas suficientemente compridas e rígidas para o arco. O pó de teixo é tóxico e os outros pós de madeira podem fazer mal aos pulmões e à pele, por isso aspire o pó na origem e use uma máscara bem ajustada, com um filtro adequado, quando passar a grosa e lixar, mesmo ao ar livre; tenha cuidado com a fonte de calor ao endireitar as hastes. A caça com arco é regulamentada ou proibida em muitos países.

## História e evolução

Arcos e flechas são feitos de madeira, tendão e penas, materiais que raramente se conservam, por isso o tiro com arco mais antigo lê-se nas pontas de pedra. Na gruta de Sibudu, no KwaZulu-Natal, na África do Sul, pequenas pontas de pedra com cerca de 64 000 anos mostram danos de impacto, vestígios de sangue e de osso e restos da cola de resina vegetal que as prendia a uma haste, o que sugere que armavam flechas. Alguns investigadores propuseram pontas mais antigas, com cerca de 74 000 anos, em Shinfa-Metema 1, na Etiópia, uma interpretação que estudos posteriores ainda não confirmaram. Na Europa, o indício provável mais antigo vem da gruta Mandrin, no sul de França: pontas de sílex com cerca de 54 000 anos, deixadas por humanos modernos e demasiado pequenas para terem sido atiradas à mão.

As hastes de flecha mais antigas que se conhecem, de pinho, vêm de Stellmoor, perto de Hamburgo, e têm cerca de 12 000 anos. O arco completo mais antigo, de ulmeiro, foi encontrado na turfeira de Holmegaard, na Dinamarca, e data de cerca de 7000 a.C. Ötzi, o homem que morreu nos Alpes há uns 5300 anos, levava uma vara de teixo inacabada e uma aljava de pele de veado com 14 flechas; só duas estavam acabadas, com pontas de sílex e penas fixadas com alcatrão de vidoeiro e fibra vegetal.

![Um arco compósito asiático desarmado, com os braços curvados para a frente, no sentido oposto ao arqueiro, e pontas de osso](https://lastcodex.org/_astro/v3.DBrUJOHY_2uXSci.webp)
_Desarmado, o arco compósito curva-se para a frente, para longe do arqueiro; ao armá-lo, dobra-se ao contrário e acumula energia antes mesmo de se puxar a corda._

Nas estepes da Ásia e no Próximo Oriente, os fabricantes de arcos criaram o arco compósito, colado a partir de uma alma fina de madeira, com chifre no ventre e tendão no dorso. É mais curto do que um arco simples com a mesma potência, o que convinha aos arqueiros que atiravam de carros de guerra e a cavalo, e armou os citas, os hunos, os mongóis e os turcos otomanos.

Na Europa Ocidental, o arco longo de teixo serviu os exércitos ingleses em Crécy, em 1346, e em Azincourt, em 1415. Dos destroços do *Mary Rose*, o navio de guerra de Henrique VIII que se afundou em 1545, recuperaram-se 172 arcos longos, cada um talhado numa única peça de teixo e com até 2,11 m de comprimento. As armas de fogo demoravam mais a carregar, mas um soldado aprendia a usá-las muito mais depressa do que se formava um arqueiro, e ao longo dos séculos XVI e XVII as armas de fogo afastaram o arco dos campos de batalha europeus. Continuou a ser uma arma de caça em muitas partes do mundo, e o tiro com arco tornou-se um desporto, praticado hoje com arcos de fibra de vidro e de carbono e com arcos compostos, que usam roldanas.

## Números-chave

- Primeiras pontas de flecha: Há cerca de 64 000 anos, gruta de Sibudu, África do Sul
- Arco completo mais antigo: Holmegaard, Dinamarca, em ulmeiro, cerca de 7000 a.C.
- O equipamento de Ötzi: Vara de teixo inacabada de 1,82 m, 14 flechas, duas delas acabadas
- Arcos longos do Mary Rose (afundado em 1545): 172 recuperados, potência estimada entre 65 e 175 libras (290 a 780 N)

## Requer

- [Ferramentas de pedra](https://lastcodex.org/pt/inventions/stone-tools/): O primeiro gume (há 3,3 milhões de anos)
- [Corda e cordame](https://lastcodex.org/pt/inventions/rope/): Fibras torcidas que seguram tudo (há 50.000 anos)

## Fontes

- [Indications of bow and stone-tipped arrow use 64 000 years ago in KwaZulu-Natal, South Africa](https://resolve.cambridge.org/core/journals/antiquity/article/abs/indications-of-bow-and-stonetipped-arrow-use-64-000-years-ago-in-kwazulunatal-south-africa/89AF638BE5E64CEAC63363EFDD4D5E8F), Antiquity (Lombard and Phillipson, 2010)
- [Surviving a volcanic supereruption may have facilitated human dispersal out of Africa](https://news.utexas.edu/2024/03/20/surviving-a-volcanic-supereruption-may-have-facilitated-human-dispersal-out-of-africa/), University of Texas at Austin
- [Earliest likely evidence for bow and arrow use in Europe, 54,000 years ago, found in southern France](https://popular-archaeology.com/article/earliest-likely-evidence-for-bow-and-arrow-use-in-europe-54000-years-ago-found-in-southern-france/), Popular Archaeology
- [How old is the bow and arrow?](https://www.worldarchery.sport/news/166330/), World Archery
- [Ötzi's equipment](https://www.iceman.it/en/equipment/), South Tyrol Museum of Archaeology
- [The longbows of the Mary Rose](https://maryrose.org/ship/bows1.htm), Mary Rose Trust
- [Standardised Equipment or Specialist Groups? The Role of Archery Aboard Mary Rose](https://eprints.soton.ac.uk/id/eprint/500151/), University of Southampton (Parkes, PhD thesis, 2024)
- [On the Mechanics of the Bow and Arrow](https://www.bio.vu.nl/thb/users/kooi/thesis.pdf), Rijksuniversiteit Groningen (Kooi, PhD thesis, 1983)

Factos verificados em 2026-10-12.

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The Last Codex · https://lastcodex.org/pt/inventions/bow-and-arrow/ · © The Last Codex. Textos, pranchas e figuras: CC BY-NC-ND 4.0.
