# Escrita

> O saber que sobrevive à memória

- Data: c. 3.300 a.C.
- Época: Pré-história
- Domínio: [Escrita e comunicação](https://lastcodex.org/pt/domains/communication/)
- Etapa: II (Fixação)
- Dificuldade: 2/5
- URL: https://lastcodex.org/pt/inventions/writing/

A escrita fixa a língua com marcas visíveis que outra pessoa pode reler mais tarde, longe ou muito depois da morte de quem escreveu. Surgiu várias vezes de forma independente; entre os testemunhos mais antigos estão tabuinhas do sul da Mesopotâmia de cerca de 3300 a.C., em que os contadores dos templos imprimiam e traçavam sinais enquanto a argila estava húmida.

![Escrita · O saber que sobrevive à memória](https://lastcodex.org/_astro/plate.JVOGYT9J_i8D8S.webp)

## Legenda

1. Fichas de argila para contar
2. Invólucro de argila aberto, com fichas dentro
3. Tabuinha arcaica: números, cevada e um jarro
4. Cálamo de cana cortada
5. Paleta de escriba com tinta preta e vermelha
6. Rolo de papiro

## O que é

![Fichas de argila de várias formas junto a uma bola de argila oca partida ao meio, com mais fichas lá dentro](https://lastcodex.org/_astro/v2.DHjt09o1_ZL7Fp8.webp)
_Cada forma de ficha designava provavelmente um tipo de mercadoria. Seladas num invólucro de argila, as fichas podiam guardar o registo de uma dívida até ao pagamento._

A escrita é um conjunto de marcas visíveis, combinadas dentro de uma comunidade, que representam as palavras ou os sons de uma língua. Um leitor que nunca conheceu o autor consegue recuperar a mensagem, mesmo séculos depois.

Faziam-se contas muito antes de se escrever. No Próximo Oriente surgem, a partir de cerca de 8000 a.C., pequenas fichas de argila em forma de cone, esfera ou disco. A arqueóloga Denise Schmandt-Besserat vê nelas peças para contar quantidades de cereal, óleo ou gado; outros, como Lucy Bennison-Chapman, defendem que muitas tinham outros usos. Por volta de 3500 a.C., os contadores fechavam as fichas em bolas ocas de argila e imprimiam as suas formas por fora. Assim registavam quantidades, mas não um nome nem uma frase.

Uma escrita pode anotar palavras inteiras, sílabas ou sons isolados, e muitas combinam estes princípios.

## Como funciona

Duas ideias transformaram a contagem em escrita. A primeira deu sinais distintos à quantidade e à mercadoria. Nas tabuinhas mais antigas de Uruk, os números são impressos com a ponta redonda de um cálamo e os bens são desenhados ao lado com uma ponta aguçada: cinco marcas e uma espiga de cevada para cinco medidas de cevada. O valor de um sinal numérico ainda dependia do que se contava, com sistemas diferentes para o cereal, o gado ou a terra.

A segunda foi o princípio do rébus: usar um sinal pelo seu som. Em sumério, «flecha» e «vida» soavam da mesma maneira, por isso o sinal da flecha podia escrever também «vida», uma palavra difícil de desenhar. Os sinais fonéticos surgem na Mesopotâmia por volta de 3000 a.C.

![A ponta quadrada de uma cana cortada junto a três marcas em forma de cunha na argila húmida](https://lastcodex.org/_astro/v1.bS53Egvl_F5XNL.webp)
_Conforme o ângulo, a aresta de uma cana cortada deixa cunhas verticais, horizontais ou oblíquas._

Traçar curvas na argila húmida levanta-a em rebordos, por isso os escribas passaram a carregar com a aresta de uma cana cortada. Cada pressão deixava uma cunha, e ao longo do III milénio a.C. os desenhos tornaram-se grupos de cunhas, daí o nome cuneiforme, do latim _cuneus_.

Os escribas egípcios mastigavam a ponta de um caule de junco até a abrir em pincel e esfregavam-na em pastilhas de tinta preta ou vermelha encaixadas numa paleta de madeira. Escreviam em papiro, tiras da medula da planta dispostas em duas camadas cruzadas, prensadas e secas. Mais tarde, os alfabetos usaram sinais para sons isolados, de modo que algumas dezenas chegam para escrever qualquer palavra.

## Como construir

É preciso argila fina, água, uma cana seca ou uma vara de jardim da grossura de um lápis, uma faca e um pano húmido.

**Preparar a argila.** A argila de oleiro serve tal como está. A de uma margem de rio deve ficar de molho, passar por um pano para tirar a areia grossa e endurecer até guardar a marca do polegar sem colar. Amasse-a bem para expulsar as bolhas de ar.

**Moldar a tabuinha.** Achate uma bola do tamanho de um ovo pequeno até formar uma almofada com cerca de 2 cm de espessura, que caiba numa mão.

**Cortar o cálamo.** Serre cerca de 15 cm de cana. Perto de uma ponta, desbaste os lados com a faca até a ponta ter secção quadrada, com faces planas e arestas vivas, e corte-a a direito: um canto premido na argila deixa uma cunha. Corte a outra ponta através de um nó, para que o septo maciço feche o tubo, e arredonde-a; também serve um pauzinho de madeira redondo. Premida na vertical deixa um círculo e, inclinada, um entalhe em forma de D, as duas formas dos primeiros números.

**Escrever.** Divida a face em casas com a aresta comprida do cálamo e ponha uma entrada em cada uma. Imprima o número com a ponta redonda e levante-a sem arrastar. Depois desenhe o sinal do que se conta com um canto da ponta quadrada, como os primeiros escribas, ou componha-o com cunhas impressas, como os seus sucessores.

**Secar.** Deixe a tabuinha vários dias à sombra, virando-a uma vez para não rachar. A argila seca volta a amolecer na água; a cozedura num forno, como na cerâmica, torna-a duradoura.

**Experimentar o alfabeto.** Diga dez palavras em voz alta e anote os sons que ouve, sem pensar nas letras com que se escrevem. Dê a cada som um sinal simples, com o velho truque: desenhe uma coisa cujo nome comece por esse som. Se nenhuma palavra começar por um som, invente-lhe um sinal. Acrescente um sinal sempre que uma palavra trouxer um som novo: a maioria dos alfabetos tem entre vinte e quarenta e poucas letras.

> **Segurança.** Ao aparar a cana, corte sempre afastando a lâmina do corpo. Não lixe nem varra a argila seca: o seu pó contém sílica fina que prejudica os pulmões; limpe com um pano húmido. Coza as tabuinhas apenas num forno de cerâmica e nunca uma peça ainda húmida, que pode rebentar.

## História e evolução

As tabuinhas mais antigas vêm do nível Uruk IV do bairro dos templos de Uruk, datado em geral de cerca de 3350–3200 a.C., e por alguns autores de 3200–3100. Conhecem-se mais de 6000 tabuinhas e fragmentos protocuneiformes de Uruk e de outros sítios, sobretudo contas. O cuneiforme durou mais de três mil anos.

![Um pincel chinês, um bastão de tinta e uma pedra de tinta com um pouco de água na cavidade](https://lastcodex.org/_astro/v3.C8m56mKu_1kvwsA.webp)
_Na China, o escriba esfregava um bastão de tinta numa pedra molhada e escrevia com um pincel de pelo pontiagudo._

No Egito, etiquetas de osso e marfim do túmulo U-j de Abidos, datadas de cerca de 3200 a.C., já trazem hieróglifos, alguns com valor fonético. Os especialistas ainda discutem se o Egito foi buscar a ideia à Mesopotâmia. A escrita chinesa aparece nos ossos oraculares Shang de Anyang por volta de 1200 a.C., já madura. Na Mesoamérica escrevia-se em Oaxaca por volta de 400 a.C., e os glifos maias pintados de San Bartolo datam de 300–200 a.C. Não se conhece contacto entre estas regiões e o Próximo Oriente nessas datas: são invenções independentes.

O alfabeto nasceu dos hieróglifos. Cerca de quarenta inscrições curtas das minas de turquesa de Serabit el-Khadim, no Sinai, e duas de Wadi el-Hol, no Egito, usam apenas 27 a 29 sinais. Os seus autores falavam uma língua semítica e davam a cada imagem egípcia o primeiro som do seu nome na própria língua: a casa, _beth_, passou a b; a água, _mem_, passou a m. As datas propostas vão de cerca de 1850 a 1550 a.C. Por volta de 1200–1050 a.C., os fenícios escreviam 22 letras consoantes da direita para a esquerda. Os gregos adotaram-nas por volta de 800 a.C. e acrescentaram vogais, e os etruscos transmitiram o alfabeto a Roma no século VII a.C.

O papel, fabricado na China desde o século II a.C., tornou-se mais tarde o suporte habitual da escrita e dos livros impressos.

## Números-chave

- Tabuinhas mais antigas: Uruk, sul do Iraque, por volta de 3350–3200 a.C. (3200–3100 segundo alguns autores)
- Primeiro corpus: Mais de 6000 tabuinhas e fragmentos protocuneiformes, sobretudo contas
- Invenções independentes: Mesopotâmia, China e Mesoamérica; Egito provavelmente, mas é discutido
- Primeiro alfabeto: De 27 a 29 sinais, Sinai e Egito, entre cerca de 1850 e 1550 a.C.
- Alfabeto fenício: 22 letras consoantes, por volta de 1200–1050 a.C.

## Requer

- [Cerâmica](https://lastcodex.org/pt/inventions/pottery/): Barro transformado em pedra pelo fogo (há 18.000 anos)
- [Ferramentas de pedra](https://lastcodex.org/pt/inventions/stone-tools/): O primeiro gume (há 3,3 milhões de anos)

## Conduz a

- [Numeração posicional](https://lastcodex.org/pt/inventions/positional-numerals/): Algarismos que valem pela sua posição (c. 2.050 a.C.)
- [Prensa de impressão](https://lastcodex.org/pt/inventions/printing-press/): Tipos móveis, copiados aos milhares (c. 1440)
- [Telégrafo elétrico](https://lastcodex.org/pt/inventions/telegraph/): Mensagens escritas enviadas por um fio (1837)

## Fontes

- [The state of decipherment of proto-Elamite (Englund, 2004)](https://cdli.earth/files-up/publications/englund2004c.pdf), Cuneiform Digital Library Initiative
- [Seals and signs: tracing the origins of writing in ancient South-west Asia (Kelley, Cartolano & Ferrara, 2024)](https://www.cambridge.org/core/journals/antiquity/article/seals-and-signs-tracing-the-origins-of-writing-in-ancient-southwest-asia/B3C2D400F3F80A7A0162D9035C9C2804), Antiquity, Cambridge University Press
- [The Evolution of Writing (Schmandt-Besserat, 2014)](https://sites.utexas.edu/dsb/tokens/the-evolution-of-writing/), Denise Schmandt-Besserat, University of Texas at Austin
- [Reconsidering 'Tokens': The Neolithic Origins of Accounting or Multifunctional, Utilitarian Tools? (Bennison-Chapman, 2019)](https://www.cambridge.org/core/journals/cambridge-archaeological-journal/article/abs/reconsidering-tokens-the-neolithic-origins-of-accounting-or-multifunctional-utilitarian-tools/7E6C04CB040AD8AA0EA84B94D4D275C4), Cambridge Archaeological Journal, Cambridge University Press
- [Visible Language: Inventions of Writing in the Ancient Middle East and Beyond (Woods, ed., 2010)](https://isac.uchicago.edu/sites/default/files/uploads/shared/docs/oimp32.pdf), Institute for the Study of Ancient Cultures, University of Chicago
- [Early Egyptian Writing (1999)](https://archive.archaeology.org/9903/newsbriefs/egypt.html), Archaeology, Archaeological Institute of America
- [Oracle bone (50-31)](https://art.nelson-atkins.org/objects/23289/oracle-bone), Nelson-Atkins Museum of Art
- [Evidence of Earliest Maya Writing (report on Saturno, Stuart & Beltrán, Science, 2006)](https://www.mesoweb.org/reports/SanBartoloWriting.html), Mesoweb
- [Proto-Sinaitic: Progenitor of the Alphabet (Simons, 2011)](https://rosetta.bham.ac.uk/wp-content/uploads/2024/02/Simons_Proto-Sinaitic_Rosetta9.pdf), Rosetta 9, University of Birmingham
- [The alphabet](https://mediengeschichte.dnb.de/DBSMZBN/Content/EN/SoundsSymbolsScript/01-alphabet-en.html), Deutsche Nationalbibliothek, German Museum of Books and Writing
- [Papyrus](https://www.csmc.uni-hamburg.de/profiling-guide/materials/writing-surfaces/papyrus.html), Centre for the Study of Manuscript Cultures, Universität Hamburg
- [Scribal Palette](https://memphis.edu/egypt/exhibit/palette.php), Institute of Egyptian Art and Archaeology, University of Memphis
- [The Cuneiform Stylus (on Cammarosano, Mesopotamia 49, 2014)](https://www.bookandsword.com/2022/12/10/the-cuneiform-stylus/), Book and Sword
- [What the Earliest Texts Say About the Invention of Writing](https://www.discovermagazine.com/what-the-earliest-texts-say-about-the-invention-of-writing-692), Discover Magazine

Factos verificados em 2026-10-14.

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The Last Codex · https://lastcodex.org/pt/inventions/writing/ · © The Last Codex. Textos, pranchas e figuras: CC BY-NC-ND 4.0.
