Aqueduto
Água levada só pela gravidade
Prancha
- 1Arcarias (pilares e arcos)
- 2Canal (specus)
- 3Revestimento impermeável (opus signinum)
- 4Lajes de cobertura
Anatomia
A carregar a figura…
Um aqueduto leva a água de uma nascente distante até uma cidade por um canal que desce muito ligeiramente em todo o percurso, de modo que só a gravidade mantém a água em movimento. Os romanos construíram centenas, em túnel, em vala coberta ou sobre arcarias como a Pont du Gard, e alguns transportavam dezenas de milhares de metros cúbicos por dia.
O que é
Um aqueduto é um curso de água artificial que leva a água de uma nascente até ao sítio onde é usada. Quase todo o traçado fica escondido: um canal de pedra ou de betão, coberto, que corre numa vala ou num túnel a meia encosta. As altas arcarias que imaginamos primeiro são apenas os pontos onde o canal tinha de atravessar um vale sem perder altura.
A prancha mostra uma dessas travessias, do tipo construído sobre o rio Gardon, perto de Nîmes, no século I d.C. O canal corre no topo do andar mais alto.
Como funciona
Onde a água corre num canal aberto, como acontece na maior parte de um aqueduto, o canal tem de descer sem interrupção da nascente até à cidade, sem nunca voltar a subir e sem cair depressa demais. Com pouca inclinação, a água abranda e deposita o lodo; com demasiada, desgasta o revestimento. O aqueduto de Nîmes, com cerca de 50 km, perde apenas 12 a 13 m entre a nascente e a cidade (as medições diferem um pouco), em média cerca de 25 cm por quilómetro, e bastante menos em alguns troços. Na própria Pont du Gard a descida é de poucos centímetros.
O canal, chamado specus, tinha em regra a largura de um homem e um pouco mais de altura, para que os operários pudessem entrar e limpá-lo. O fundo e as paredes levavam opus signinum, uma argamassa de cal com telha e cerâmica moídas que endurece e retém a água. Rebordos arredondados no pé das paredes fechavam os cantos, que é por onde começam as fugas. Lajes de pedra ou uma abóbada cobriam o conjunto, impediam a entrada de sujidade e de sol e evitavam que a água aquecesse.
Traçar uma inclinação assim ao longo de dezenas de quilómetros era trabalho de agrimensores. Vitrúvio, no final do século I a.C., descreve o corobate, uma longa mesa de madeira cujos fios de prumo, ou com vento uma ranhura cheia de água, mostram se está nivelada. Com ela e com balizas de mira, uma equipa transportava uma linha de nível através de toda a paisagem e marcava a inclinação em estacas.
Um sifão invertido: a água volta a subir na outra encosta, mas nunca até ao nível de partida.
Os vales profundos também podiam ser vencidos com um sifão invertido. A água entrava num tanque na primeira encosta, descia por tubos de chumbo estanques, atravessava o fundo do vale sobre uma ponte baixa e subia a encosta oposta até um segundo tanque colocado um pouco mais abaixo. Vitrúvio já descreve este dispositivo e chama venter, o ventre, ao longo troço quase horizontal que atravessa o fundo do vale. O sifão poupava alvenaria, mas o chumbo era caro e as juntas tinham de aguentar muita pressão. Segundo a tradução habitual, o seu texto prevê também respiros para deixar escapar o ar preso, embora o sentido exato do termo que usa seja discutido. Para as condutas correntes preferia o barro cozido, porque achava que a água que passava pelo chumbo fazia mal à saúde.
O tanque de distribuição circular de Nîmes, de onde dez tubos de chumbo levavam a água aos bairros.
Na cidade, a água chegava a um tanque de distribuição, o castellum. Vitrúvio descreve um dividido em três, com saídas separadas para os chafarizes públicos, as termas e as casas particulares, disposto de modo que os chafarizes fossem os últimos a ficar sem água. O que se conserva em Nîmes é um tanque redondo com cerca de 5,5 m de diâmetro, de onde dez tubos de chumbo seguiam para os bairros. A água corria dia e noite; a que não era usada ia lavar os esgotos. Vitrúvio acrescenta que as taxas pagas pelos particulares deviam custear a manutenção do aqueduto. Para Nîmes, as estimativas do caudal vão de cerca de 20 000 a 40 000 m³ por dia, e a água levava cerca de um dia a chegar da nascente.
Como construir
Os grandes aquedutos romanos exigiam dinheiro público, agrimensores qualificados e equipas numerosas. À escala de uma horta, os mesmos princípios trazem sem bomba a água de uma nascente ou de uma cisterna de chuva até um charco ou um canteiro.
O corobate: uma mesa de nivelamento com cerca de 20 pés romanos, verificada com fios de prumo ou com água numa ranhura.
Medir os níveis. Marque a nascente e o ponto de chegada e meça a diferença de altura. Um tubo de plástico transparente cheio de água serve de corobate moderno: a água fica à mesma altura nas duas pontas. Crave estacas de poucos em poucos metros ao longo do traçado e anote a altura de cada uma.
Escolher a inclinação. Um canal liso com água limpa precisa em geral de alguns milímetros de descida por metro; dimensione-o para o caudal previsto e evite troços íngremes onde a água correria depressa demais. Reparta a descida tão por igual quanto o terreno permitir e prefira um desvio ao longo da curva de nível a uma lomba onde a água pararia.
Abrir a vala e assentar o canal. Abra a vala até às profundidades marcadas, calque o fundo e assente o canal: meias-canas de barro cozido, uma caleira de alvenaria revestida de argamassa de cal hidráulica ou de cimento, deixada a curar antes de receber água, ou um simples tubo. Verifique a inclinação com o tubo de água em cada junta. Se for de alvenaria, vede as juntas e arredonde os cantos interiores.
Juntar um tanque de decantação. Logo a seguir à nascente, construa um pequeno tanque onde a água abranda e deixa a areia antes de entrar no canal. Ponha uma grelha contra as folhas e um descarregador para que uma cheia não rebente a obra.
Cobrir. Feche o canal com lajes ou telhas. A água coberta mantém-se mais limpa e mais fresca, e criam-se nela menos algas.
Segurança. As paredes de uma vala podem desabar, sobretudo em terreno solto ou molhado: escore-as ou incline-as antes de trabalhar numa vala funda, e nunca trabalhe lá dentro sozinho. Não use tubos nem soldadura de chumbo para água que pessoas ou animais vão beber, e considere a instalação como não potável: não beba a sua água. A argamassa de cal é cáustica: use luvas e óculos, e máscara contra poeiras ao misturar cal a seco. Qualquer tanque aberto é um risco de afogamento para crianças pequenas: vede-o ou cubra-o. Erguer arcos ou muros acima da cabeça é trabalho em altura com pedras pesadas: use um andaime a sério e peça conselho a um pedreiro.
História e evolução
As condutas de água são muito mais antigas do que Roma. O rei assírio Senaqueribe mandou construir, entre cerca de 703 e 690 a.C., um canal que levava água a Nínive; em Jerwan, atravessava um vale sobre uma ponte de calcário com mais de 280 m, muitas vezes apontada como a mais antiga ponte-aqueduto conhecida.
O primeiro aqueduto de Roma, a Aqua Appia, foi iniciado em 312 a.C. sob o censor Ápio Cláudio Cego, que também construiu a Via Ápia. Tinha cerca de 16,5 km e corria quase todo debaixo da terra. Seguiram-se o Anio Vetus em 272 a.C., a Aqua Marcia em 144 a.C., com mais de 90 km, e a Aqua Claudia e o Anio Novus, concluídos em 52 d.C. No final do século I, o imperador Nerva nomeou Frontino curador das águas; o seu tratado enumera nove aquedutos que serviam a cidade, com os seus comprimentos e as fraudes que lá descobriu.
A Pont du Gard foi provavelmente construída entre cerca de 40 e 60 d.C., embora alguns estudos alarguem o intervalo até 80. Os seus três andares têm 6, 11 e 35 arcos; outros 12 do andar superior perderam-se. Os grandes blocos de calcário dos seus arcos, alguns com até 6 toneladas, estão assentes sem argamassa. O aqueduto de Nîmes deixou de funcionar à medida que depósitos e raízes o entupiam, provavelmente por volta do século VI. A ponte sobreviveu em parte porque era usada para atravessar o rio; em 1743-1747 Henri Pitot encostou-lhe uma ponte rodoviária ao andar inferior, e é Património Mundial desde 1985.
Cidades e mosteiros medievais construíram aquedutos mais modestos, e os sistemas modernos combinam canais e túneis por gravidade com condutas sob pressão, bombas e reservatórios. Uma inclinação suave e constante continua a reger canais, esgotos e outras condutas onde a água corre por gravidade.