Destilação

Separar líquidos fervendo e condensando

Data
c. 300
Época
Antiguidade
Etapa
III Ofícios e cidades
Dificuldade

Prancha

Legenda
  1. 1Fogo da fornalha
  2. 2Caldeira com o líquido a ferver
  3. 3Capitel
  4. 4Tubo do vapor
  5. 5Serpentina numa tina de água fria
  6. 6Recipiente coletor

Anatomia

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A destilação separa os componentes de um líquido aquecendo-o até parte dele evaporar e arrefecendo esse vapor, que volta a ser líquido noutro recipiente. Descrita no Egito romano por volta do ano 300 d.C., deu água pura, perfumes e óleos essenciais, álcool para a medicina e, desde o século XIX, os combustíveis refinados do petróleo.

O que é

Destilar é separar substâncias evaporando-as e condensando-as. Aquece-se um líquido, quase sempre até ferver, para que parte dele passe a vapor; esse vapor é levado para outro lado, arrefecido, e volta a ser líquido noutro recipiente. O que não evapora fica na caldeira: sal, lama, corantes, a maior parte dos germes.

Os boticários usavam-na para remédios e águas de cheiro, os perfumistas para tirar o aroma das flores, os médicos para obter o álcool forte com que dissolviam fármacos e tratavam feridas. Laboratórios e hospitais usam água destilada porque quase não leva sais dissolvidos, e é pela mesma razão que se atestam com ela as baterias de chumbo.

A estampa mostra um alambique do início do século XVI, tal como aparecia nos primeiros livros impressos sobre a arte de destilar: uma caldeira de cobre sobre uma pequena fornalha, um capitel abaulado e um tubo que serpenteia por uma tina de água fria antes de pingar num frasco.

Como funciona

Todo o líquido liberta vapor, tanto mais quanto mais quente estiver, e ferve quando a pressão desse vapor iguala a do ar. Ao nível do mar a água ferve a 100 °C, o etanol, o álcool do vinho, a cerca de 78 °C, e o metanol a cerca de 65 °C. Os sais quase não evaporam, por isso ferver água do mar e condensar o vapor dá água doce.

O fogo aquece a caldeira e o vapor sobe para o capitel. Dali desce por um tubo até à serpentina, uma espiral mergulhada em água fria que lhe tira o calor. O vapor condensa-se dentro do cobre e cai gota a gota no recipiente coletor.

Um vaso alto de vidro com um tubo lateral fino, uma camada de óleo dourado a flutuar sobre a água e raminhos de alfazema ao lado No vaso florentino o óleo flutua sobre a água, que sai pelo tubo lateral.

Os óleos essenciais obtêm-se por arrastamento de vapor. O vapor atravessa flores, folhas ou cascas e leva consigo o seu óleo aromático. Óleo e água não se misturam, por isso cada um contribui com a sua pressão de vapor e o par ferve abaixo de 100 °C, mesmo quando o óleo sozinho só ferveria acima de 250 °C. O óleo passa assim sem queimar e forma uma camada à parte no recipiente.

Quando na caldeira há dois líquidos miscíveis que evaporam, como a água e o álcool, a separação é só parcial. O vapor é mais rico no mais volátil, mas nunca puro, e por isso os destiladores voltavam a passar o produto pelo alambique. Uma coluna de fracionamento repete a operação muitas vezes numa só passagem: o vapor que sobe cruza-se com o líquido que desce, o refluxo, e em cada nível uma parte condensa e volta a ferver. As refinarias separam assim o crude em gás, gasolina, querosene, gasóleo e resíduos pesados segundo os intervalos de ebulição.

Como fazer

Esta secção trata de uma só coisa: tornar potável água salgada ou lamacenta. Não descreve o fabrico de álcool. Destilar aguardente em casa é proibido sem licença em muitos países, e um alambique mal conduzido pode concentrar metanol, que cega e mata em pequenas quantidades e não se deteta pelo sabor nem pelo cheiro.

Destilador solar. Deite alguns centímetros de água num tabuleiro escuro e pouco fundo, em pleno sol. Cubra-o com um vidro limpo, ou com plástico transparente próprio para alimentos que aguente o calor, inclinado para que as gotas escorram pela face de baixo até uma caleira no bordo mais baixo, que leve a um frasco de vidro tapado. Vede as juntas para o vapor não escapar. Com sol tropical, um destilador bem feito dá dois a três litros por metro quadrado por dia; noutros climas, e com materiais improvisados, conte com menos.

Uma panela sobre uma fogueira, em corte: lá dentro, uma tigela pequena pousada numa pedra e gotas que caem nela da pega da tampa virada ao contrário Com a tampa virada ao contrário, a água que nela condensa corre para a pega e pinga na tigela.

Panela e tampa. Encha até meio uma panela grande de metal e ponha-a ao lume. Ao centro, coloque uma tigela pequena e limpa de metal sobre uma pedra, com o bordo bem acima da água. Ponha uma tampa de metal ao contrário, com a pega virada para a tigela, e mantenha-a fria com neve, água fria ou um pano molhado; nunca arrefeça assim uma tampa de vidro, que pode estalar. Mantenha uma fervura branda: uma fervura forte salpica água por tratar para dentro da tigela.

Procure fugas. Deixe secar algumas gotas da água recolhida num prato escuro e limpo. Uma crosta branca indica que água por tratar salpica ou escorre para o recipiente. Um prato limpo não prova mais nada: nem que o destilador separa bem, nem que a água é segura, porque uma água límpida pode conter substâncias nocivas e só uma análise de laboratório o pode dizer.

Conheça os limites. A destilação deixa para trás o sal, metais como o chumbo, os nitratos e os germes. Não elimina com segurança as substâncias que fervem perto de 100 °C ou abaixo, como alguns solventes e combustíveis, e outros químicos passam com o vapor: se a fonte puder estar poluída por químicos, procure outra. Guarde a água em recipientes limpos e tapados de vidro, aço inoxidável ou plástico próprio para alimentos, porque os germes voltam depressa. Evite a louça de barro vidrada, cujo vidrado pode libertar chumbo.

Segurança. O vapor queima mais do que a água a ferver: levante as tampas afastando-as do rosto. Nunca feche hermeticamente um recipiente que está a aquecer nem prenda a sua tampa; o vapor precisa de uma saída, senão a panela pode rebentar. O vidro comum racha sobre a chama ou com um arrefecimento brusco. Vigie o lume, mantenha-o longe de erva seca e as crianças à distância. Nunca destile combustível, álcool nem líquidos desconhecidos: os seus vapores pegam fogo, e o metanol de um líquido fermentado passa para o destilado.

História e evolução

Em Tepe Gawra, no norte do Iraque, há vasos do V e IV milénios a.C. com um canal à volta da boca que pode ter recolhido um líquido condensado. Em experiências publicadas em 2020, réplicas deram água perfumada, mas o uso original desses vasos continua em discussão.

Um alambique antigo de barro sobre um fogareiro de argila, com três tubos de cobre que vão do capitel a três frascos pequenos O tribikos dos alquimistas de Alexandria levava o vapor por três bicas até três frascos.

As primeiras descrições claras de alambiques vêm do Egito romano. Por volta de 300 d.C., o alquimista Zósimo de Panópolis escreveu sobre alambiques de um ou vários tubos e atribuiu alguns a Maria, a Judia. Alquimistas e médicos do mundo islâmico adotaram o aparelho, e o seu nome árabe, al-anbiq, deu «alambique». No século IX, o filósofo al-Kindi escreveu um livro sobre perfumes e destilação com mais de cem receitas.

Em Bolonha, na década de 1270, médicos descreveram a aqua vitae, a «água da vida», álcool destilado do vinho e usado como remédio. Em Estrasburgo, o cirurgião Hieronymus Brunschwig publicou em 1500 o primeiro manual impresso sobre a destilação de águas medicinais e, em 1512, uma obra mais extensa.

Em 1830, o irlandês Aeneas Coffey patenteou um alambique de duas colunas que trabalhava sem parar em vez de por cargas. Por volta de 1854, Samuel Kier tinha em Pittsburgh uma das primeiras refinarias de petróleo e destilava o crude para obter petróleo de iluminação. Em 2011 a destilação ainda representava cerca de um terço da capacidade de dessalinização instalada no mundo, muitas vezes em instalações que aproveitam o calor perdido de centrais elétricas.


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